“Ah, garoto. Você não entende o quão errado é isso que você faz comigo. Eu não queria que você me prendesse sem a intenção de me libertar. Mas é inevitável, eu não consigo me controlar. Há um pedacinho de mim que não quer e que não deixa. Não me deixa te deixar. Porque seria impossível te deixar sem me deixar. Você me tem e só não sabe ainda. Só não percebeu ainda. As evidências estão aí, pairando no ar. Nesse ar gelado precisando de um calor. Se você precisar também, eu posso dar. Dou ele todo para você. Porque eu odeio dizer ‘não’ para essa porra desse seu sorriso. Que chama toda a minha atenção. Me desconcerta, me desconcentra. Me desmonta.”
“O coração dela não batia como o das outras. De sangue quente e mente fria, ela só precisava se desligar disso tudo. Por dentro, doente… Sempre confiando em sua cura, não notou que o efeito era um veneno. Viciada, dopada, caída por amor. Caída por um amor que só lhe fazia mal. Rasgava sua mente desprotegida, cercada por um infinito poço de ilusões que tanto ofuscavam a opaca luz de suas ideias. Deixada no escuro, sem caminho, sem destino, sem futuro. Ninguém gritava por ela, ninguém estava por ela. Resistiu em seu mundo silencioso e vazio, desacreditou nas histórias de amor. Ainda matando-se aos poucos, entrega-se em meio aos gritos de dor.”
“Não me conformo com o que nos aconteceu e desejo reafirmar que o amo. Estou certa de que um dia nos casaremos e seremos felizes. Enquanto não chega esse momento, peço-lhe que não desista. Vamos continuar lutando para conquistar nossa felicidade. Você pode imaginar como fiquei quando soube que você tinha partido daquela forma. Muitas vezes tentei lhe telefonar, não consegui falar com você. Certamente estava vigiando o telefone. Esta foi a forma que encontrei para me comunicar. Mas o que eu gostaria mesmo é de estar ao seu lado, poder abraça-lo, beija-lo como fazíamos, sentir seu perfume. Tenho pensado muito, duas vezes durante o sono, fui a seu quarto. Estou certa de que estive lá. Mas não o encontrei. Você deve ter saído do corpo e não consegui vê-lo. Pensei que se você todas as noites ás vinte e duas horas se deitasse e pensasse em mim talvez pudéssemos nos encontrar no astral e matar nossa saudade.”
“Meu mau humor atinge o meu relacionamento com a minha própria pessoa.”
E eu ando por ai menosprezando tudo que vejo e todos que me rodeiam. Duvidando, desacreditando e não me importando mais. Escuto mas não ouço, sinto mas não reajo, vejo mas não enxergo. Por um tempo, achei que eu ia ser diferente, sabe, melhor. Tenho sim um coração, mas nesse momento não quero e nem preciso usá-lo. Deixe ele aqui, onde está, guardadinho comigo. Não vou o expor tão facilmente dessa vez, não quero que ele de machuque de novo como das outras vezes (…) Preciso de um tempo pra mim, um tempo para meu coração dizer qual direção ele quer e precisa seguir, porque até agora eu só tenho caminhado, caminhado bastante, meio que sem rumo e direção. Em busca de nada, em busca de um nada que faça sentido pra mim. Um nada que me dê a direção certa sobre tudo. Talvez esteja distante ainda, talvez eu precise caminhar mais, falar, sentir e pensar menos. “Talvez”… Por isso apenas caminho… caminho. (cicatriza-r)
“Eram cinco horas da tarde quando Bernardo, postou-se sozinho na porta do colégio onde Carolina estudava para esperar a saída.
Olga saiu coma uma colega e ele aproximou-se delas estendendo a mão:
— Como vai, Olga?
— Bem, e você?
— Muito bem.
Antes que dissesse alguma coisa, Olga informou:
— Se for esperar Carolina, ela está conversando com uma professora, mas penso que não vai demorar.
— Eu não vim ver Carolina, estava esperando por você.
Ela corou:
— Eu?!
— Sim. Outro dia quando nos encontramos, não tivemos oportunidade de conversar. Hoje vim especialmente para isso.
— Nesse caso, fiquem a vontade. Eu preciso ir — tornou a colega dela estendendo a mão para de despedir.
Quando se viram a sós, Bernardo disse:
— Vamos dar uma volta e conversar?
— Vamos.
Os dois foram caminhando lado a lado e Bernardo notou que ela tinha um andar elegante.
— Vim até aqui, mas não sei se estou sendo inconveniente. Uma moça bonita como você pode estar comprometida e eu não quero causar-lhe nenhum problema.
— Fique tranquilo. Não há ninguém. Podemos conversar á vontade.
Continuaram caminhando e conversando até uma praça e Bernardo convidou:
— Vamos nos sentar um pouco. A tarde está tão linda!
— De fato. Os pássaros estão cantando, gosto muito de observar a natureza. Você não?
Ele preferia outras coisas, mas concordou:
— Também adoro. Este jardim, por exemplo, é encantador.
Ela sorriu e ele viu que ela tinha dentes bem distribuídos, uma boca benfeita e carnuda. Não tinha notado isso antes. Pensando bem, ela até que era atraente. Isso tornaria mais agradável sua intenção.
Em certo momento da conversa, Bernardo segurou a mão dela e comentou:
— Sua pele é macia, delicada.
Em seguida, levou-a aos lábios beijando-a. Olga retirou a mão e ele a olhou surpreendido:
— O que foi?
— Porque está fazendo isso?
— Desculpe, mas não resisti.
Ela o olhou firme nos olhos e respondeu:
— Não acredito que seja isso.
— Porque? Não se acha atraente?
— Sei que sou bonita e os garotos vivem me dizendo isso. Nossa cidade é pequena, nos vemos com frequência e você nunca se interessou por mim. O que mudou?
— Éramos crianças. Outro dia quando a vi saindo do colégio, notei que você cresceu, tornou-se uma moça atraente e senti vontade de conhecê-la melhor.
— Por outro lado, nos últimos tempos tenho ouvido alguns comentários sobre você.
— É? O povo gosta mesmo de fofoca.
— Como sabe que esses comentários não foram bons?
— Pelo tom de desconfiança da sua voz.
Ela riu e respondeu:
— De fato. Você tem fama de namorador e o que fiz há pouco justifica.
— Não fiz nada de mais. Só expressei meus sentimentos. Você me atrai e notei também que se interessa um pouco por mim.
Ela olhou séria, ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
— Não nego que acho você um garoto atraente, mas isso não significa que o tenha autorizado a tomar certas liberdades comigo.
— Pensei que estivesse sentindo o mesmo que eu.
— Gostei de encontrá-lo, também desejava conhecê-lo melhor, mas nem por isso vou tomar liberdades com você. Eu preservo minha intimidade. Sua atitude faz-me pensar que esteja apenas se divertindo.
— Isso não é verdade. Estou sendo sincero. Não imaginava que você fosse reagir assim. As meninas hoje estão bem mais liberais.
— Pode dizer que sou antiquada. Não me importo. O que sei é que nós não nos conhecemos o suficiente para que tenha certas liberdades.
Bernardo não se conteve:
— Você fala como se eu houvesse cometido um crime!
— Não exagere. Você disse que quer me conhecer melhor. Eu penso a mesma coisa. Mas não gosto desse tipo de situação. Podemos ser amigos, chegarmos até um namoro, ou então á conclusão de que preferimos não estreitar nossa relação.
— Não pensei que você fosse tão dura.
— Não encare dessa forma. Estou sendo sincera. Gosto de ver as coisas como elas são.
— Elas não são desse jeito. E o romantismo, onde fica? Sou um garoto romântico. Acredito no amor. E quando se ama há o prazer do toque, do beijo, da intimidade.
— Quando se ama! Não é o nosso caso. Se algum dia eu amar alguém e for correspondida, então tudo será diferente.
— Para chegar ao amor há que experimentar. Se você põe uma barreira e não permite nem que alguém beije sua mão, ficará solteira.
Ela riu sonoramente e Bernardo ficou desconcertado. Ele disse essa frase como se fosse o máximo e não esperava reação dela. Era irritante e ele fechou a cara e permaneceu silencioso.
Quando ela parou de rir, o olhou com olhos brilhantes e disse:
— Não se zangue comigo. É que quando você disse isso, imaginei-me uma solteira velha, acabada, sentada na sala fazendo crochê. Isso não faz meu gênero.
Ele sorriu também, e ela se levantou:
— Preciso ir. Minha mãe se preocupa quando demoro depois da aula.
Ele levantou-se também. Apesar de haver melhorado a fisionomia, ele se sentia desconcertado e sem vontade de bancar o garoto apaixonado como havia planejado.
Foram andando e Olga começou a perguntar o que ele achava da faculdade, do curso que estava fazendo. Fez algumas observações inteligentes e sentiu prazer em falar sobre seus projetos.
Na esquina da casa dela, pararam. Olga estendeu a mão:
— Até outro dia, Bernardo.
— Acho que você quer me ver pelas costas.
— Engana-se. Gostei de conversar com você. Acho que atrás de suas atitudes sociais e de fachada, há um garoto mais lúcido, capaz de se tonar um bom amigo ou um namorado sincero. Quando desejar conversar, apareça.
Ele ficou mais desconcertado. Procurou dissimular, sorriu e respondeu:
— Está bem. Até outro dia.
Ela se foi, e Bernardo foi caminhando pensativo, recordando o que haviam conversado.
Ela era irritante, convencida: “Sei que sou bonita!”. Pretensiosa, isso sim é o que ela era. Fazer tanto barulho por causa de um beijo inocente, era o cúmulo! Nunca mais iria procurá-la.
Seus amigos diziam que ela estava apaixonada por ele, mas era mentira.
“Não permitia intimidades” Muitas garotas ficaram felizes por ele haver as beijado, mas ela colocara isso como um crime. “Quem ela pensa que é?”.”